Revista Princípios Digital

domingo, 9 de novembro de 2014

SOCIÓLOGA Rita Coitinho: Cai o muro, segue a história

O dia 9 de novembro de 1989 passou para a história como o dia da “queda do Muro de Berlim”. Não pelo muro, em si, mas pelo que representava: a divisão do mundo em dois blocos opostos e irreconciliáveis.

Por Rita Coitinho, especial para o Portal Vermelho

   
A queda do muro, que separava a República Democrática da Alemanha (socialista) da República Federal da Alemanha (capitalista) foi apenas um dos eventos que marcaram a dissolução do “bloco socialista”, que culminaria no fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) no ano de 1991.

Na leitura de Vizentini (1), “a abertura do Muro de Berlim e a desintegração da URSS, apesar de constituírem símbolos poderosos, não foram, verdadeiramente, os motivadores do fim da Guerra Fria, mas consequências deste fenômeno. Sem a renúncia soviética ao seu espaço de poder, numa situação inédita e, até, patética, o colapso não haveria ocorrido, ao menos desta forma e neste ritmo”.

A Guerra Fria acabara entre 1987 e 1988. Sem apoio soviético ou, como na interpretação de Hobsbawm (2), sem a presença coercitiva do Estado soviético, que desde meados da década de 1980 abandonava os países periféricos à própria sorte, os países do Leste Europeu logo se descolaram do bloco. Destes, apenas a Polônia contava, de fato, com uma oposição organizada ao partido comunista. Com uma crise econômica cada vez mais profunda e grave crise política que já durava anos, a situação tornou-se insustentável a ponto de em agosto de 1989 o governo ser entregue, com o consentimento soviético, aos conservadores (que então predominavam no Partido Solidariedade).

À Polônia seguiu-se a queda do regime na Hungria (que já aplicava um “socialismo de mercado” desde a década de 1960, em grave crise no final dos anos 1980), com a formação de um governo de centro-direita. Em novembro foi a vez da Alemanha Oriental (RDA) e da Tchecoslováquia, também em crise financeira (embora em situação ainda melhor que seus vizinhos). Em seguida, na Bulgária, a ala reformista do Partido Comunista aproveitou os primeiros protestos para dar um golpe e permanecer no poder. Na Romênia a própria URSS apoiou um golpe militar, ocorrido após violenta repressão a manifestações populares.

Os acontecimentos do Leste Europeu, em alguns casos, como na Romênia, com passagens dramáticas e pirotécnicas - uma “guerra civil” amplamente televisionada, onde populares atacavam e incendiavam prédios da polícia política, episódio “coroado” com o fuzilamento do presidente Ceauscescu, apelidado de “vampiro romeno” – causaram grande impressão. A cena em que a população de Berlim derruba pedaços do Muro que dividia a cidade, sob o olhar passivo dos guardas da fronteira, foi amplamente divulgada (e até hoje repetida) como o marco decisivo do fim de uma era - a do socialismo real.

Engana-se, porém, quem encara a débâcle do socialismo no Leste e na URSS como o resultado dos levantes das massas inconformadas. Esta é a interpretação que convém ao propagandista liberal. As manifestações populares pelo fim do regime circunscreveram-se aos países da “periferia” socialista (o “calcanhar de Aquiles” do sistema soviético, conforme Hobsbawm) e a queda dos regimes teve, senão ajuda, ao menos a complacência soviética.

Na URSS o regime contava com amplo apoio popular e a liderança do Partido Comunista Soviético (PCUS) não sofria questionamentos de maior monta. As razões do fim do socialismo real precisam ser buscadas principalmente internamente (ou, melhor, “de cima para baixo”), embora desde a década de 1970 a URSS já sofresse os impactos das crises da economia capitalista, tornando-se, talvez, uma das suas principais vítimas (até a década de 1990, ao menos, os países capitalistas vinham conseguindo se recuperar, mais ou menos rapidamente, das crises econômicas). Conforme Hobsbawm: “O socialismo real agora enfrentava não apenas seus próprios problemas sistêmicos insolúveis, mas também os de uma economia mundial mutante e problemática, na qual se achava cada vez mais integrado”. A economia ia mal, porém, se se deseja encontrar uma “razão maior” para a queda, é nas determinantes políticas que se deve concentrar a análise.

E por quê? Porque as saídas políticas (glasnost – transparência) e econômicas (perestroika – reconstrução, reorganização ou reestruturação) implementadas sob a liderança do núcleo dirigente do PCUS - cujo secretário geral era Gorbachev - para o enfrentamento da crise conduziam, inequivocamente, à adesão da URSS à economia de mercado e aos princípios da democracia liberal. Isto estava claro (no plano econômico) desde as primeiras reformas em direção do mercado e tornou-se ainda mais transparente no derradeiro congresso do PCUS (28º Congresso, em 1990).

Leia mais:
Queda do muro virou mito de vencedores
O dia em que o Partido Comunista chegou ao poder na Rússia

Já Lênin, em 1921, dissera que “Ninguém nos pode arruinar senão os nossos próprios erros”. É certo que as pressões externas, a própria Guerra Fria, foram em larga medida determinantes para a crise do modelo soviético. Porém é importante que se explore as causas intrínsecas ao partido, ao comando do processo. Pois foram os dirigentes do PCUS que optaram pela via do mercado, que já nos anos 1990 jogou a maioria da população russa na miséria e na instabilidade econômica. E foi também a partir das resoluções do próprio PCUS que se pôs fim à sua existência.
Um antigo membro do PCUS, V.A. Tiulkine, que há cerca de um ano publicou um artigo com suas memórias do 28º Congresso do partido (3), afirma que o partido estava “doente de não comunismo”. Em sua visão, a virada começara ainda sob a direção de Khruchev, quando no 22º Congresso do PCUS adotou-se a designação de partido de todo o povo, orientado para dirigir o Estado de todo o povo. Na visão de Tiulkine, o partido, embora mantivesse seu nome e sua simbologia, enveredava, a partir de Khruchev, pela estrada do reformismo, que os conduziu até a situação de 1991, quando a ascensão de Boris Yeltsin pôs termo à própria URSS - cujo espólio ficou para a Federação Russa, da qual era presidente.

Tiulkine relata que o 28º Congresso do PCUS aprovou (não sem diversas intervenções em contrário, que podem ser lidas no próprio artigo citado) as reformas econômicas de Gorbachev que já estavam em andamento há alguns anos, conforme o próprio Gorbachev reconheceu perante o congresso (numa demonstração de que uma minoria já havia se apropriado do poder, sendo o congresso do partido apenas um espaço de validação da linha política já adotada). Os conceitos de economia de mercado e estratificação social baseada no rendimento foram apresentados ao partido como grandes descobertas econômicas, como se não fossem, exatamente, os conceitos chave da economia burguesa. O “poder popular” passava a ser encarado como o pluripartidarismo e a adoção de um parlamentarismo.

O resultado catastrófico destas medidas foi o fim do socialismo, cujas consequências para o povo soviético todos nós já conhecemos: profunda crise econômica, desnacionalização de grandes empresas, crescimento das máfias e grande concentração de renda nas mãos de poucos. Além disso, conflitos nacionalistas sangrentos espalharam-se pelas repúblicas da ex-URSS.

O colapso soviético foi recebido com otimismo pelo ocidente capitalista. Chegou-se a aventar que a história chegava ao fim. No já célebre livro de Fukuyama celebrou-se a ordem capitalista e liberal como o topo do desenvolvimento da humanidade. Dali para frente seria necessário apenas aperfeiçoar as estruturas socioeconômicas. Finda a Guerra Fria, estabelecida uma ordem unipolar, e a “aldeia global” com os EUA como grande hegemon mundial, estava encerrada a luta de classes.

A realidade, porém, insiste em ser um pouco mais complexa do que desejariam Fukuyama e os demais propagandistas do liberalismo e do modelo norte-americano. Apenas doze anos após o 9 de novembro de 1989 (a queda do Muro de Berlim), viria o 11 de setembro de 2001, quando as Torres Gêmeas foram atingidas por aviões supostamente sequestrados por militantes da rede Al-Qaeda. Nas palavras de Zizek (4), se “o 9 de novembro anunciou os ‘felizes anos 90’, o sonho de Fukuyama de que a democracia liberal vencera, a busca terminara, o advento de uma comunidade mundial global espreitava logo ali na esquina, e os obstáculos a esse final feliz ultra-hollywoodiano eram apenas empíricos e contingentes”, com o 11 de setembro de 2001 temos “o símbolo fundamental do fim dos felizes anos 90 de Clinton, da época em que por toda parte surgiram novos muros” (como os que separam Israel e Cisjordânia, Estados Unidos e México etc.).

A imersão estadunidense em conflitos sem fim no Oriente Médio e sua aparente confusão de objetivos, somada ao ascenso de novas (e velhas, como a Rússia) potências no cenário mundial – e o consequente surgimento de uma multipolaridade no cenário mundial – demonstram que, definitivamente, a história continua, embora não se saiba para onde se dirige.

A retórica do fim da história, no entanto, permanece na mídia, nas academias e nos partidos políticos, embora de maneira mais sofisticada. Aceita-se que a história não terminou, mas ao mesmo tempo a democracia liberal e o capitalismo parecem não ter adversários. Como provoca Zizek, “é fácil rir da noção de fim da história de Fukuyama, mas o ethos dominante hoje é ‘fukuyamiano’: o capitalismo democrático liberal é aceito como a fórmula da melhor sociedade possível que finalmente se encontrou – só resta torná-lo mais justo, mais tolerante etc.”.

Estaríamos, afinal, condenados a restaurar o capitalismo em moldes “mais humanos” simplesmente porque o socialismo soviético ruiu (por seus próprios erros, como suspeitamos neste texto e em acordo com alguns eminentes autores, aqui citados)? Não temos nenhuma outra alternativa?

Mas então o que explica o nascimento das novas perspectivas latino-americanas, que em nome de um socialismo renovado mobilizam multidões, grande parte das quais oriundas das favelas e dos setores mais empobrecidos de suas sociedades? As sociedades liberais não parecem oferecer alternativas reais a esses milhões que vivem nas periferias urbanas ou ainda no campo, subempregados e sub-representados pelas estruturas de poder estatal. O novo parece insistir em voltar à cena histórica e é provável que a principal tarefa do século 21 seja muito semelhante à do século 20: politizar e organizar os grandes contingentes que jamais serão “incluídos” pela economia de mercado.

Mas organizar para quê? Para que entreguem outra vez o poder ou para que o exerçam de fato? Talvez compreender melhor os erros que levaram à queda da experiência soviética possa nos trazer pistas para novas experiências de poder popular, para além do horizonte do liberalismo, que já começa a dar mostras de seu esgotamento no próprio centro do sistema. A crise econômica e política que atualmente atravessam os principais países capitalistas, jogando enormes contingentes de seu próprio povo (já não é possível exportar todos os malefícios da crise, como no passado) está demonstrando que, definitivamente, o estado liberal burguês e a economia capitalista não são o fim, mas uma parte da história.

Notas:
1 - VIZENTINI, Paulo G. Fagundes & PEREIRA, Analúcia D. História do Mundo Contemporâneo – Da Pax Britânica do Século XVII ao Choque das Civilizações do século XXI – Petrópolis: Vozes, 2008.
2 – HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos – o Breve século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
3 - O artigo de V.A. Tiúlkine está disponível em http://www.hist-socialismo.com/docs/TiulkineUltimoCongressoPCUS.pdf
4 – ZIZEK, Slavoj. Em defesa das causas perdidas. São Paulo: Boitempo, 2012.

Rita Coitinho é Mestra em sociologia, cientista social, doutoranda em geografia e colunista do Portal Vermelho ( http://www.vermelho.org.br/noticia/253124-9 )

Nenhum comentário:

Postar um comentário